Consultoria APS, S&OP e MES para Indústrias | LSB Siemens Partner
O artigo mostra que programar ordens sem garantir a disponibilidade real de materiais gera desperdícios, paradas e atrasos. Apresenta o conceito de “Liberável” no APS, que identifica quais ordens podem ser executadas com segurança, aumentando a confiabilidade da programação e evitando decisões baseadas em promessas de fornecimento.
Quem trabalha com PCP já viveu esse filme mais de uma vez.
Duas ordens de produção com a mesma data de entrega, o mesmo cliente pressionando e o mesmo discurso: “isso é prioridade máxima”. No ERP, tudo parece sob controle. O MRP mostra que os materiais estão “cobertos”. O plano está feito, a sequência está pronta, a fábrica se organiza para rodar.
Só que existe um detalhe incômodo: uma dessas ordens está 100% coberta por estoque físico já disponível no armazém. A outra depende de uma ordem de compra de um fornecedor que costuma atrasar. No sistema, as duas parecem “viáveis”. Na vida real, apenas uma delas é de fato segura de mandar para o chão.
Esse abismo entre o que o sistema promete e o que a fábrica consegue executar é um dos grandes motivos de dor no dia a dia do PCP. E é justamente aí que o uso inteligente do Opcenter APS (Scheduling), com o conceito de “Liberável”, começa a fazer diferença.
Este artigo é sobre isso: como sair da programação ingênua, que trata material como se fosse infinito, para uma programação que coloca a confiabilidade dos materiais no centro da decisão.
A forma como muitas empresas tratam materiais ainda é essencialmente estática. O raciocínio é mais ou menos assim:
Em um relatório de MRP, isso até faz sentido. Você enxerga necessidades, fornecimentos planejados, datas de entrega e, em tese, consegue prever se haverá falta ou sobra. Mas, quando saímos do nível tático e caímos no detalhe da programação fina, essa visão começa a falhar.
Entre a “cobertura planejada” e o material fisicamente disponível acontecem coisas como:
O resultado é conhecido: equipamento preparado, setup feito, equipe posicionada, e o PCP descobre (somente naquele momento) que falta um componente essencial para rodar a ordem.
Do ponto de vista econômico, isso é um desastre: perda de tempo, capacidade desperdiçada, reprogramação emergencial e, muitas vezes, atraso de entrega. Do ponto de vista de gestão, isso é um sintoma claro de que programação e materiais não estão conversando no nível que deveriam.
O Opcenter APS (Scheduling) já nasce com uma visão mais rica de materiais do que a simples “tem/não tem”. Para cada operação, o sistema armazena informações sobre:
Com base nisso, o Opcenter faz uma alocação que pode seguir diferentes critérios (de acordo com as regras e prioridades da empresa): é possível alocar a ordem vinculada ao estoque, ao que virá de ordens de produção e, por fim, ao que está planejado em ordens de compra.
Essa alocação gera estados como:
Esse mecanismo já permite que o PCP veja, por exemplo, que determinadas ordens têm material em falta e não devem ser programadas. Mas existe um ponto cego importante: o estado “satisfeito” não diferencia se a cobertura veio de um estoque disponível no armazém ou de uma ordem de compra que ainda não chegou.
Quem está na rotina de PCP não quer apenas saber se o material “está previsto”. A pergunta real é mais direta:
“Eu posso liberar essa ordem hoje para a fábrica sem correr o risco óbvio de parar a linha por falta de material?”
Para quem está apenas olhando um relatório, isso pode parecer detalhe. Para quem está tomando decisão de quais ordens vão para o chão de fábrica amanhã cedo, isso é a diferença entre uma programação firme e um tiro no escuro.
Na prática, esse é um atributo de operação modelado no Opcenter APS pela LSB para representar uma ideia simples:
“Essa operação está pronta para entrar na programação firme porque o material não depende de promessas frágeis.”
De forma geral, considera-se Liberável = SIM quando:
E considera-se Liberável = NÃO quando:
O ponto-chave aqui é que o cálculo do Liberável não é uma “opinião” do planejador. Ele é derivado da alocação real de materiais que o Opcenter já executa. Ou seja, é a ferramenta dizendo, com base em dados integrados:
“Esta operação depende apenas do que você já tem sob controle direto” ou “Esta operação ainda está exposta a riscos de fornecimento.”
Ao marcar uma operação como liberável ou não liberável, o Opcenter dá ao PCP uma nova dimensão de análise que não existe em uma programação que olha apenas para datas de entrega e capacidade das máquinas.
Voltemos à cena inicial, agora com o conceito de Liberável em jogo. Temos duas ordens de produção para a mesma semana, mesmo cliente, mesmo grau de pressão comercial:
Na visão padrão de materiais, as duas aparecem como cobertas. Na visão com o atributo “Liberável”:
Quando o PCP abre o Opcenter para montar a programação do período, o sistema deixa explícito qual parte da carteira de ordens pode ser transformada em plano firme para o chão e qual parte deve ser tratada como “condicionada” ao desempenho da cadeia de compras.
Essa simples distinção muda completamente a lógica de decisão. Em vez de tentar encaixar tudo ao mesmo tempo, o PCP passa a trabalhar em camadas:
Na prática, isso reduz a probabilidade de montar setups em ordens que vão travar por falta de material e direciona o uso da capacidade disponível para aquilo que realmente pode ser produzido.
Quando esse atributo é incorporado ao modelo, a rotina diária do PCP dentro do Opcenter geralmente passa a seguir um fluxo mais maduro.
Primeiro, são trazidos para o sistema os dados atualizados: estoques, ordens de produção, ordens de compra e pedidos de venda. A integração alimenta o Opcenter com a realidade mais recente.
Em seguida, o mecanismo de alocação de materiais é reexecutado. É nesse momento que o sistema recalcula quais ordens têm sua necessidade de material atendida e de onde vem cada cobertura. É aqui também que o estado de Shortage é atualizado.
Com essa base pronta, entra o cálculo do Liberável. A partir do resultado da alocação, as operações são classificadas como liberáveis ou não liberáveis conforme a regra definida no projeto: se a cobertura veio apenas de fontes consideradas confiáveis no curto prazo, a operação é marcada como liberável; se existe dependência de compra ou falta de material, ela permanece como não liberável (esse critério pode ser redefinido ou personalizado de acordo com a regra de negócio vigente).
A partir daí, o PCP deixa de montar a programação simplesmente ordenando datas de entrega e prioridades comerciais. Ele permite aplicar um filtro adicional: construir a programação firme apenas com operações liberáveis, de modo que o plano que chega ao chão de fábrica esteja respaldado pela realidade dos materiais.
O que fica de fora desse plano firme não é ignorado. Pelo contrário, torna-se um insumo valioso para conversas com Compras e Vendas. As ordens não liberáveis passam a compor uma “lista de pendências de materiais”, mostrando claramente quais pedidos estão sendo travados por falta de confiabilidade na cadeia de suprimentos.
Esse backlog não liberável vira pauta de reuniões:
Em outras palavras, o Liberável não é apenas um atributo técnico. Ele é um gatilho para conversas mais maduras entre áreas, sustentadas por dados que refletem, com clareza, onde a fábrica está protegida e onde está exposta.
Quando a empresa passa a enxergar o plano de produção por esse prisma (o que é liberável e o que ainda está preso em incerteza) a qualidade das discussões internas muda. Entre PCP e Compras, o diálogo deixa de ser um “pedido de urgência” genérico para virar uma discussão muito mais concreta:
Com Vendas, a conversa sai do terreno das promessas vagas e da pressão emocional. É possível mostrar, de forma objetiva, que determinados prazos estão apoiados em materiais que ainda não são liberáveis, e isso permite ajustar expectativas antes que o problema chegue ao cliente.
Com a diretoria, o atributo abre espaço para discutir políticas de estoques e níveis de serviço sob outra ótica: não apenas “estoque alto ou baixo”, mas “estoque direcionado para reduzir a porcentagem de plano não liberável em determinados produtos estratégicos”.
Tudo isso nasce de um ponto simples: a programação da produção deixa de tratar materiais como uma suposição e passa a tratá-los como uma variável central de decisão.
É claro que esse tipo de modelagem exige responsabilidade. Algumas armadilhas são comuns quando a empresa começa a trabalhar com o conceito de ordens liberáveis. Uma delas é tratar o atributo como se fosse apenas mais uma informação disponível na tela, sem deixar que ele influencie a forma como o plano é construído. Se o PCP não muda o hábito de programar, o atributo vira apenas uma coluna bonita que não altera o comportamento.
Outra armadilha está nas regras de cálculo. Em alguns contextos, pode fazer sentido considerar como liberável um material que está com entrega confirmada para dentro de um intervalo muito curto, por exemplo. Em outros, só o estoque físico deve ser considerado. Definir esse limite é uma decisão estratégica, ligada ao apetite de risco da operação, e não apenas uma escolha técnica.
Também é comum ver empresas que olham apenas para o plano firme e ignoram o backlog não liberável. Quando isso acontece, perde-se justamente o principal ganho do conceito: a capacidade de enxergar, com clareza, onde o planejamento de materiais está desalinhado com o nível de serviço que se deseja entregar.
Por fim, é importante evitar que o atributo se torne um campo “manual”, sujeito à interpretação de diferentes usuários. Sempre que possível, ele deve ser derivado de forma automática da situação real dos materiais, usando a lógica de alocação do próprio Opcenter.
Quando esses cuidados são observados, esse conceito deixa de ser um experimento e passa a ser uma peça consistente na arquitetura de planejamento da empresa.
No fim das contas, programar a produção sempre será um exercício de escolher: o que entra na linha, em que momento, com qual prioridade. Capacidade sempre será limitada. Pedidos sempre terão prazos agressivos. A fábrica sempre estará pressionada a fazer mais, mais rápido. A diferença está em como essas escolhas são feitas.
Se a programação ignora a confiabilidade dos materiais, parte importante da decisão fica, na prática, nas mãos de fornecedores e no acaso da execução. É quando a empresa “descobre” a falta de material na máquina, e não na tela.
Ao trazer o conceito de Liberável para dentro do Opcenter APS, a LSB busca exatamente o oposto: transformar aquilo que o PCP já sabe intuitivamente — que nem toda OP com prazo apertado está realmente em condições de ser produzida — em lógica de sistema, em critério objetivo e em rotina de trabalho.
Quando o plano firme é construído considerando não só datas e cargas, mas também a segurança dos materiais, a fábrica deixa de ser refém de surpresas, e a programação passa a ser, de fato, um instrumento de proteção do atendimento ao cliente.
Em outras palavras: programar ordem sem material é pedir para sofrer. Usar o Opcenter APS com o conceito de Liberável é decidir sofrer menos (e entregar mais), com a mesma capacidade que você já tem hoje.
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